segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Capítulo II

CAPÍTULO II – O Enxadrista


Caravaggio que se deixou abater.
Mas por quem?
Caravaggio tinha 85 anos, sua própria morte era apenas questão de tempo. Talvez ele até ansiasse por isso visto que em tanto tempo de vida só apanhou da sociedade e da própria família. Desde a infância foi obrigado a trabalhar para sustentar suas cinco irmãs mais novas. O pai era pedreiro e morreu quando um bloco de cimento escorregou do parapeito de um prédio e esmagou seus miolos. A mãe tinha diabetes e perdeu uma perna, impossibilitando-a de trabalhar em qualquer coisa que fosse, inclusive no lar.
E tudo isso aconteceu quando Caravaggio não tinha nem 15 anos.
De tanto trabalhar pra garantir o mínimo para não morrerem de fome, Caravaggio não fazia amigos e nem namoradas. Não que não gostasse de mulher, mas de tanto conviver com várias não aprendeu a malandragem de se chegar em uma: mais se parecia com uma mulher mesmo.
Mas não ter o pescoço de uma mulher de verdade para cheirar e o corpo de uma para se deliciar deixava o coração do jovem e esquelético Caravaggio amargurado.
Até que um dia desistiu dos seus instintos e se conformou em morrer solteiro.
Mas um homem que, passa ano, passa década, continuava sozinho e sem uma mulher do lado despertava o olhar da vizinhança e da sociedade, ainda o mais quando foi abandonado pela última irmã que ainda morava consigo. A mãe havia morrido de diabetes. As outras irmãs se perderam no mundo com seus homens. Inclusive, a última partiu sem nem dizer “Obrigado por tudo meu irmão querido”.
E assim Caravaggio foi por mais vinte anos vitima de chacotas pelos vizinhos do bairro pobre em que morava por ser o solteirão condenado a virgindade eterna. E era bem por aí, pois havia também um detalhe: Caravaggio era feio, muito feio.
Feio mesmo.
Acredite: a dor e angústia da chacota e da discriminação é infinitamente maior que os problemas que te levaram para tal.
Até que um dia Caravaggio abriu um bar na sua vila com o pouco que conseguiu juntar durante os anos e pela primeira vez em sua vida passou a fazer algumas amizades: com bêbados e devedores.
Foi nestas idas e vindas que conheceu certo dia Zuza, com quem viera a se casar. Zuza era muito bela. Tinha cabelos encaracolados e castanhos, olhos cor de mel, pele branca com sardas perto dos olhos, corpo um pouco acima do peso, que lhe dava um ar de “mulher independente”, pés e mãos um pouco judiadas pelas aulas forçadas de ballet e piano. Ela tinha 21 anos na época. Ele, 55.
Não se casaram por amor, é verdade. Mas por aquilo que move o mundo desde que Deus colocou o Homem na face da Terra: o interesse.
Caravaggio jamais conheceu a família da esposa: ela era lésbica e foi expulsa de casa assim que os pais descobriram. Sabendo disso eles se casaram, mas apenas para que ambos estivessem livres das aparências impostas pela sociedade, ficando-os assim livres das más impressões durante alguns anos. No entanto Zuza só aceitou se casar com Caravaggio com uma condição:
- Nada de relações sexuais seu coroa arrogante!
Era uma relação conturbada. O desejo dentro do peito (e também das calças) de Caravaggio aumentava a cada vez que via a “esposa” se despir na sua frente sem qualquer preocupação. Cogitou agarrá-la a força, mas não teve coragem: era fraco demais para isso também.
Pelo menos todos pararam de mexer com ele.
E assim viveu, cobiçando Zuza com os olhos, por longos doze anos até seu assassinato. Mataram-na junto com sua parceira com quem saia há algum tempo sem consentimento de Caravaggio, que jamais quis conhecer namorada alguma de Zuza.
Não é preciso falar que as chacotas voltaram, e talvez até pior. No entanto não era mais solteiro em sua certidão: constava agora como viúvo.
E isso servia de algum consolo. Pequeno, mas servia.
Desde então, a vida de Caravaggio continuou a mesma porcaria que sempre fora, só que desta vez solitária novamente. O agora velho Caravaggio, já com seus 60 anos poderia até matar sua vontade de comer em um bordel qualquer, mas não era isso que ele queria. E não era isso que aconteceu no transcorrer do tempo.
Deu pra notar como Caravaggio era infeliz com essa rápida biografia chula? No entanto, Caravaggio se deixou abater mas não mudou o rumo de sua vida já predestinada de miséria e solidão: não se perdeu no mundo como muitos. Era um perdido, mas não se perdeu.
E essa é a grande diferença.
Existe sempre alguém acima de você, mas também sempre há alguém abaixo. E foi assim que muitos fizeram de Casulo o que ela é hoje, uma pocilga de marginais. Pois a grande maioria acreditava estar no fundo do poço onde a única maneira de sair era puxar a corda que mantém o outro vivo pendurado neste planeta. Caravaggio estava há muito tempo pendurado aqui, como um peso, mas em momento algum por mais profundo que estivesse, puxou ninguém para alimentar sua própria desgraça e vingança.
Ao contrário de Óitik. Este viveu algo semelhante à Caravaggio.
Não, não era solteirão e tampouco virgem.
Óitik nasceu em família conturbada também, começou a trabalhar cedo e apanhava dos pais. Seu pai foi assassinado por Hudson Bill, um assassino de aluguel que matava a troco de bala Chita, quando tinha dez anos. A mãe era louca e lhe fez uma cicatriz nas costas com uma faca aos treze. Aos quinze ele começou a se drogar. Aos vinte era chefe do crime em Casulo.
As situações eram diferentes, mas os propósitos eram os mesmos: sustentar a família. Mesmo com o ódio no coração, Óitik fazia do crime o seu ganha pão. Talvez até gostasse dessa vida. Mas enquanto Caravaggio suava o rosto magrelo engraxando sapatos para levar um saco de leite para as irmãs e a mãe amputada, Óitik matava e via o sangue escorrer pelo seu rosto rechonchudo para levar um saco de leite para a mãe louca.
Óitik também se deixou abater.
Mas por quem?
Esse foi por sim mesmo.
E é se espelhando em Caravaggio que Caparotto Jasper construiu sua filosofia de trabalho: a inexistência do determinismo. Pois mesmo em condições onde todos os elementos poderiam te levar à loucura e a insanidade, o autocontrole se faz mais forte. Caravaggio se deixou abater pois viveu triste e solitário e não fez nada para melhorar, mas Óitik se abateu pois se deixou levar para a loucura e perdição.
E foi abatido também antes dos trinta. Jasper o matou com um tiro na testa.
Por isso Jasper matava, pois independente de tudo cada um poderia escolher o seu destino, e se a escolha fosse no futuro ser morto por suas mãos, não havia problema algum nisso pois foi essa a escolha feita.
Não se enganem, todos sabemos das conseqüências de nossos atos.
Mica Kash, obviamente, era determinista. Acreditava naqueles criminosos como frutos da sociedade. E assim sendo não mereciam ser executados, mas presos para pagarem por seus atos. Era aquela sociedade insana que fez Óitik buscar um refúgio no mundo do crime para levar o alimento sagrado para a sua boca. Era aquela sociedade que criava monstros para se autodestruir.
Não se enganem, todos sabemos que da sanidade para loucura basta apenas uma faísca.
Mas o destino é cruel, isso é. Não somos todos iguais, isso é ideologia comunista. Cada um é diferente do outro em vários aspectos ou no mínimo um que é o que faz a diferença. E é por isso que o destino é cruel. Pois se formos colocar Deus como um enxadrista, ele estaria sendo péssimo para mexer suas peças. Pelo menos com um garoto sim, que nasceu para ser Rei e foi colocado numa vida sacrificante de Peão.
O nome dele pouco importa, ainda que o que se sucederá não seja comum e mereça atenção. Era um menino bonito, inteligente, cabelos negros como a alma de Casulo. Não vivia em Casulo.
Mas não interessa o local onde esses eventos transcorrem, uma vez que esse tipo de coisa acontece o tempo todo em qualquer lugar do mundo.
O garoto havia nascido numa família perturbada, tal como Caravaggio Maestrino e Óitik Salamander. Mas este sim estava, não no fundo do poço, pois sempre há alguém lá antes de você, mas quase.
O pai era alcoólatra e veterano de guerra. Voltou maluco das trincheiras além das sete cicatrizes que ganhou com a explosão de uma granada aos seus pés. Foi à única coisa que ganhou na guerra. Já no que perdeu entra na conta três dedos e o olho direito. A mãe era doméstica e com a volta do marido vivia o dia inteiro levando desaforo e cusparada na cara.
Sim, ela tinha preferido que ele tivesse morrido na guerra.
O casal, além do garoto, tinha ainda outros dois filhos: outro homem e uma menina.
Nesta época o garoto tinha cerca de doze anos, seu irmão vinte e sua irmã quinze. Ele era o caçula.
Não importe quantos dias felizes você viva em sua vida, sempre haverá um único dia ruim que lhe fará uma granada de escuridão explodir em seus pés e envolver sua mente te sufocando com as lembranças. O garoto teve esse dia, embora a explosão esteja mais para bomba atômica do que para granada em sua memória.
Ele chegara da escola local, onde era considerado um gênio: era exímio em tudo o que fazia. Se você acha que com doze anos ele era fantástico por saber a capital de todos os países, saber realizar todas as operações algébricas, saber escrever uma dissertação sem erros ortográficos e saber a história do seu país de cabo a rabo, está enganado. Ele sabia isso também, mas sabia muito mais. Ele sabia a história de todos os países, ele sabia escrever um livro inteiro sem um único erro, ele sabia todas as contas possíveis e sabia onde cada um se encontrava no globo naquele momento. Não, não era paranormal, era gênio mesmo. Deduzia fazendo uso da química, física, coordenadas geográficas e tudo aquilo que ensinam até em universidades. Como ele sabia de tudo isso?
Era determinado e focado. Mas acima de tudo, havia nascido com o dom.
E foi um garoto como esse, com potencial de futuro cientista do século, presidente da república do seu país ou primeiro homem a pisar em Marte que pisou em sua casa e se deparou com um clima já bem conhecido, só que neste dia potencializado.
Ele presenciou o seu pai, já alcoolizado, discutir com seu irmão aos berros:
- VOCÊ PRECISA DE UM TRATAMENTO URGENTE! VOCÊ É DOENTE! – gritava o irmão rispidamente enquanto o pai cambaleava e se esforçava para se manter em pé.
- VOCÊ É QUEM PRECISA DE TRATAMENTO, SÓ QUE PRA VIRAR GENTE! – se esforçava o pai para gritar mais alto, a voz rouca ecoando pela casa em pânico.
- O deixe em paz Gahd, por favor – implorava a mãe para o marido que se virou e a encarou com o único olho que lhe restara na cara. Ela pôde ver a ira nas pupilas dilatadas e o ódio exalar de suas glândulas sudoríparas.
- Sua vadia, fique fora disso.
E saiu da sala. O garoto ficou ali assustado no hall da casa sem ao menos ser notado. Se ele soubesse o que estava para acontecer teria corrido para bem longe.
O que aconteceria em breve não se podia deduzir nem sendo mestre em todas as disciplinas do mundo.
E foi assim que ainda assustado e imóvel ele viu o pai irromper a sala com seu fuzil de guerra antigo e enferrujado e atirar nas costas de sua mãe que caiu intrépida no chão. A irmã, que sempre fora esbelta e muito atraente mesmo com seus quinze anos, também surgiu de seu quarto e soltou um grito de horror ao presenciar a cena.
O pai então, cambaleando bêbado, errou o segundo tiro, mas não o terceiro, ainda que caindo depois.
O terceiro disparo explodiu a cabeça do irmão que após ver a mãe ser morta não conseguiu esboçar movimento qualquer de reação. O garoto também estava aterrorizado e sabia o que o irmão havia sentido por poucos segundos antes de ser ceifado, pois aquele sentimento estava dentro dele desde o momento que pisara em casa.
E o acompanharia pro resto da vida.
O pai Gahd se levantou deixando o fuzil no chão e, sem notar a presença do caçula, caminhou para a filha, abafando seus gritos com a mão faltando dedos e lhe encurralando para o quarto.
O garoto então viu o pai e a irmã pela última vez, pois a porta do quarto se fechou e as imagens deram lugar ao som de chutes, gritos de terror e ranger de cama num uníssono de desespero.
E só aí o cérebro do garoto se lembrou de como andar, mas não como correr, pois ele tropeçou mais de três vezes até o caminho do posto policial mais perto.
Quando os policiais chegaram, o pai já tinha feito o que queria fazer, matado a filha estrangulada e se matado depois com um tiro de fuzil no peito.
O garoto foi para um orfanato e não falou com ninguém por longos três meses. Continuou freqüentando a escola, onde seu rendimento continuou impecável. Só que seu comportamento não era mais o mesmo, nem mesmo seu olhar. Parecia um zumbi ou um robô programado pra existir e não para viver.
Quando ele voltou a falar, não foi com ninguém real, e sim com seu amigo imaginário. Sim, quando eu disse que ele estava quase no fundo do poço da vida era verdade. Ainda por cima o garoto era esquizofrênico.
Mas nada do que tinha presenciado na sua casa fora ilusão. Antes fosse.
Todos que viviam com o garoto tanto na sala de aula como no quarto de orfanato, o ouviam questionar encarando o vento:
- O que faremos agora Nurmitch? 
E talvez por não receber resposta alguma da sua imaginação que ele se perdeu.
E talvez por receber todas as respostas que queria ouvir do seu subconsciente ele se salvou.
Só o garoto sabia da resposta, pois só ele via o que via, só ele sabia o que tinha vivido.
Autocontrole? Determinismo?
Não dá para saber. A única forma é conter aquilo que está acontecendo independente de como acontece. É essa a definição da parceria de Kash e Jasper.
Deus sabe também ser um ótimo enxadrista colocando as Torres certas para defender o seu jogo até o fim.
Mas não se enganem, todos sabemos que até no xadrez o mundo é desigual, afinal, porque sempre as peças brancas avançam primeiro?
Para ter mais chances de abater as pretas.