quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Caricatos Senhores da Morte

CAPÍTULO I – Absurdamente Limpos

As mesas estavam absurdamente limpas neste dia. O bar estava absurdamente vazio. Não completamente, não era um bar fantasma apesar de ter uma aparência que leve precipitadamente a essa conclusão. Era um bar de aparência western, o chão moldado por tacos rachados, as janelas quadradas sustentando vidraças igualmente rachadas e o balcão velho, por onde atrás atendia um homem igualmente velho, o único a dar um ar de vida naquele ambiente. No entanto, as mesas e cadeiras de madeira distribuídas pelo salão estavam absurdamente limpas neste dia. E o bar absurdamente vazio.
Por ora.
O velho passava uma flanela sobre a superfície do balcão e a cada movimento retirava uma crosta de poeira do local. O velho tinha olhos tristes, cabeça calva, rugas no rosto. É, de fato o tempo cicatrizou aquele homem. Lindo bebê, forte criança, astuto jovem, cansado adulto e, por fim, asqueroso velho. Culpa de quem essa imagem? Do tempo? Da sociedade? Ou do velho que se deixou abater? Talvez tudo, talvez nada.
Talvez tudo, talvez nada.
Os braços magros do velho suplicavam para largar a flanela, já calejados pelo excesso de movimentos repetitivos. No entanto, depois de um tempo, o balcão pareceu mais limpo e passou a simpatizar com as mesas e cadeiras. Com o velho jamais. Atrás do velho e do balcão estava ainda a prateleira, longa e rústica, onde dormia garrafas de uísque, vodka e vinhos que por vezes há mais de 20 anos estavam ali tomando pó.
Pobres garrafas, essas sim conhecem o sentimento de abandono.
Quando o velho enfim largou a flanela bicolor de poeira, dois homens romperam bar adentro pela porta, adivinhem? Também de madeira. A madeira envelhece com o tempo, perde o brilho e é corroída pelos cupins, talvez isso justifique a vontade do velho de construir o bar assim.
Viverem o auge juntos, e depois, juntos caírem em decadência.
O primeiro homem era alto, devia ter por volta de um metro e noventa, cabelos curtos e pretos, tão pretos, que ao exposto à luz do Sol se tingia de azulado. Os olhos castanhos eqüidistantes de um nariz pequeno e bem desenhado. Vestia uma camiseta branca, calça jeans desbotada e um sapato de couro marrom. Vestimenta simples, semblante também simples. Era magro mas notavelmente forte, e na cintura uma arma repousava, dormia, sem saber quando seria acordada. O segundo homem era relativamente baixo, cerca de um metro e setenta, cabelos também curtos só que claros, não totalmente loiros. O cabelo repartido em três formando um ligeiro “topete intelectual” dava uma imagem inofensiva e meramente infantil ao homem. Para ajudar no estereótipo, os óculos adiantavam-se no nariz curvo aos olhos azuis, e a gravata cinza de bolas vermelhas pendia para baixo sob o colarinho da camisa azul, que ornava com a calça jeans. Usava também sapatos, só que pretos, e arma também repousava em sua cintura, mas não uma e sim duas, uma a cada lado do corpo. Também magro, só que sem definições musculares e sim definições de fraqueza, o primeiro homem era completamente diferente do segundo.
Sem sombra de dúvidas, um completamente diferente do outro.
Os homens caminharam entre as mesas e chegaram ao balcão. O velho levantou os olhos frios e cinzentos para observá-los e seus lábios tremeram. Não arrisco dizer que era de medo, mas de apreensão ou ansiedade. Ou talvez fosse apenas mais um tique de velho.
- Bom dia Caravaggio, - cumprimentou o homem alto – esperamos encontrar quem pretendemos aqui hoje.
- Com certeza Sr. Kash – retrucou o velho Caravaggio com sua voz monótona – não há erro, ao menos que o mundo esteja conspirando para contrariar os eventos muito prováveis. Não é mesmo Sr. Jasper?
- Eu sei o que vai ser bem provável quando aquele imundo aparecer – respondeu o diminuto Jasper em seu tom de menosprezo, ajeitando os óculos.
- Eu já disse que dentro do meu bar eu quero que as coisas sejam resolvidas de maneira kashiana – rosnou Caravaggio, pegando a flanela só para apertá-la como tentativa de aliviar sua tensão. O pó que fugiu entre seus dedos se dispersou no ar.
 Engraçado como as coisas se dispersam facilmente.
- Muito obrigado Caravaggio, - retornou Kash – meu parceiro não entende que o método kashiano é muito mais humano que o sistema jasperiano.
- HUMANO? – rompeu a gritar Jasper, os óculos se esgueirando pelo nariz novamente – Você acha humano o que esses porcos fazem com outros humanos? Você acha um ato pacífico matar, estuprar, enganar...
- Humano não é – interrompeu Kash tranquilamente, contrapondo-se com o temperamento do colega – mas o seu método nos torna um deles, nos desumaniza.
Caravaggio assentiu com a cabeça. Pescoço fino que sustenta a cabeça calva facilmente de ser quebrado.
- Não venha me fazer apologia a bondade para com esses animais. O sistema tem que ser bruto, tem que ser na base do terror.
O terror tentando derrotar o terror. Interessante paradoxo.
- Já me expus demais e não quero mais saber dessa história. Estou fazendo a minha parte e vocês façam a de vocês, mas como disse – Caravaggio soltou uma tosse forte, que ameaçou se tornar uma crise – mas como disse, não quero ninguém morto no meu bar.
- Não mataremos ninguém – tranqüilizou-o Kash – apenas o prenderemos e o levaremos para a prisão, não é mesmo Jasper?
Jasper cruzou os braços e bufou em sinal de descontentamento, mas parecia no fundo conformado com a idéia.
Parecia.
- Logo ele chegará, não costuma atrasar, virou uma espécie de ritual ele tomar um copo, talvez dois, de uísque aqui antes de ir trabalhar – pigarreou Caravaggio.
- Você quis dizer antes de ir matar não é mesmo? – ironizou Jasper com um sorriso amarelo no rosto – Enfim hoje o Assassino das Esquinas vai ser dobrado em dois.
- Pare com isso Jasper – começou Kash, espreitando o bar – Vamos nos preparar para prendê-lo, como manda...
- A lei? A lei também nos deu o poder de queimar esse tipo de ralé meu caro amigo Kash.
- Como manda as boas normas morais – completou Kash olhando com desdém o companheiro.
Kash, apesar de ser companheiro de Jasper há alguns anos, ainda tinha medo do parceiro. Sabia que ele procurava justiça acima de tudo, só que sabia também que não media conseqüências para isso. Em palavras mais simples, não importava quanto sangue fosse derramado.
Estamos em 1996, numa cidade interiorana de um país capitalista qualquer. Não interessa o local onde esses eventos transcorrem, uma vez que esse tipo de coisa acontece o tempo todo em qualquer lugar do mundo. A única informação relevante é que a cidade se chama Casulo, o infeliz que a fundou com esse nome continua anônimo até hoje.
Faz sentido o porquê.
Casulo é uma cidade relativamente grande e que continua crescendo a passos largos ao decorrer dos anos desde a sua fundação em 1900. E quando uma cidade cresce, cresce o contingente populacional, cresce a infraestrutura, cresce a industrialização, e cresce também no outro ponto do vértice a fome, a miséria e a criminalidade. Mas em Casulo, essa outra ponta do vértice cresceu a taxas crescentes. Não em todas as questões, mas uma em especial: a criminalidade.
Não sabemos quem define isso, mas alguém possivelmente deve definir, pois parece que todo psicopata, assassino ou outro grau qualquer de maluquice nasce ou vai morar em Casulo. Os noticiários locais se divertem e rendem horas relatando os casos diários de delinqüências e a cidade vez ou outra sempre está nos jornais e telejornais de circulação nacional expondo seu “lindo exemplo de segurança”. Mas nem tudo em Casulo gira em torno de tripas e sangue.
Pelo menos, já foi pior.
Em 1991, como tentativa de solução drástica para a diminuição da criminalidade, o então prefeito da época assinou e conseguiu a aprovação de uma lei que permitia que os policiais de Casulo matassem quando achassem necessário. A lei valia para estupradores e assassinos em geral. Com o poder de matar nas mãos, muitos policiais fizeram mau uso da lei e acabaram matando alguns civis, o que tornava o quadro cada vez mais crítico.
Tem coisas, amigos, que não têm explicação.
Até que, um ano depois, dois policiais assumiram o comando da segurança municipal e baniram todos os outros que se achavam deuses por poderem empunhar uma arma e a usarem sem conseqüência.
E foi ai que as coisas aparentemente começaram a melhorar.
Os nomes deles eram Mica Kash e Caparotto Jasper. O primeiro não gostava da Lei de Sangue e preferia a prisão dos bandidos. O segundo preferia poupar a população de pagar impostos que, quando não desviados para os bolsos corruptos, em parte iriam para a manutenção do sistema carcerário de Casulo. Por isso todos temiam os dois, mas sabiam que com Kash se iria para a prisão e com Jasper se iria para o necrotério.
Mas Jasper matava consciente. Sabia que quem ele estava apagando já tinha apagado a vida ou a esperança de alguém também.
E assim, com Kash e Jasper e uma peneirada nos responsáveis pela segurança, os psicopatas de plantão sintonizaram que as conseqüências para seus atos poderiam ser desastrosas.
Essa é uma breve história do que nos interessa sobre um evento horrível que acontece numa cidade de nome também horrível.
Kash olhava com desdém o parceiro.
Mais um dia de trabalho. Quem quer sobreviver, tem que trabalhar.
Ou roubar, saquear e matar.
Seria essa a explicação para aquilo que não possui explicação?
- Venham, se escondam atrás do balcão – Caravaggio quebrou a monotonia com sua voz monótona – quero fazer o desgraçado confessar para vocês terem a certeza antes de qualquer coisa.
Kash e Jasper pularam o balcão e entraram no armário que ficava atrás, abaixo. Caravaggio deixou a porta do armário entreaberta, para que todo o sentimento do bar entrasse na pele dos dois policiais. Nenhum som, nenhuma luminosidade, nenhum evento suspeito escaparia pelo faro deles. Nem mesmo o pó do balcão que adentrava o armário. Era uma situação incomoda sim.
No entanto as mesas estavam absurdamente limpas.
Alguns minutos se passaram, essa é a verdade, mas para Kash e Jasper pareciam muito mais, pareciam horas encolhidos naquele armário. Eles espreitavam pela fresta da porta a péssima cena do queixo de Caravaggio, que vez ou outra deslizava a cabeça pelo pescoço fino para observar os dois abaixo dele. Foi quando a tese de Caravaggio se confirmou.
E um homem, moreno, olhos grandes e verdes, barba a fazer e semblante doentio rompeu bar adentro. Como o previsto.
O homem chegou ao balcão:
- Me vê uma dose do de sempre ai velhote – a voz grossa ecoando pelo bar.
Caravaggio se afastou do balcão e se virou para a prateleira, onde fitou por um momento uma garrafa de uísque e a pegou. Esta, ao contrário de suas irmãs de exílio, não estava empoeirada e estava até começada.
Era o uísque preferido de um assassino.
Caravaggio pegou um copo de vidro, típico de bar, e o encheu do uísque. O homem encarava o velho Caravaggio com seus grandes olhos verdes, sem fazer movimento algum. Quando o fez, foi para pegar o copo e descer o uísque garganta adentro. Foi-se tudo de uma golada só.
- Me dá outra dose velho asqueroso! – ordenou o homem rispidamente, os respingos de sua saliva alcoólica lavando o rosto do pobre velho.
Caravaggio o atendeu.
- Quer saber? – indagou o homem, tomando a segunda dose da mesma maneira ligeira que a primeira – Me dê essa garrafa que hoje vou levá-la junto comigo!
- Mas cadê o dinheiro Gutierrez? – desafiou o velho, seus lábios tremendo em compensação.
O homem deu um murro no balcão e o pó que ainda restava e não namorava a flanela se ergueu no ar. Será que duas doses já o tinham deixado bêbado?, pensou Kash escutando tudo e se preparando para a prisão.
Jasper também se preparava. Para o abate.
- Primeiramente meu nome não é Gutierrez, meu nome é Hector, e se você não tem o direito de falar nem meu apelido quanto mais diria o meu nome. E outra coisa seu velho, ou me dá essa porcaria de garrafa ou vou quebrar esse seu pescoço de palito e te jogar numa esquina qualquer.
Jogar em uma esquina. Isso é o bastante para quem quer capturar o Assassino das Esquinas.
O velho Caravaggio abaixou a cabeça e deu uma olhada rápida para os olhos de Kash através da fresta. Kash piscou em sinal de conforto, e quando Caravaggio subiu a face e encarou Hector “Gutierrez”, vulgo “Assassino das Esquinas”, ele sorriu.
- Ta rindo do que velhote? – bradou Hector, erguendo a mão fechada em sinal ofensivo.
- Nada, nada, aqui está a garrafa, pode levar.
Hector pegou a garrafa e sorriu como réplica. A fisionomia sombria e doentia evidenciada em cada desenho de sua face. Ele abriu a mão ainda em sentido de ataque e simulou uma arma com os dedos fingindo atirar no velho.
- Bang! – sibilou o Assassino das Esquinas, e envolto com a própria gargalhada, deu as costas ao balcão e caminhou em direção a porta.
Nesse momento, Kash irrompeu do armário com a arma em punho:
- Parado Assassino das Esquinas. Você está preso!
Concomitantemente Jasper saiu do armário com as duas armas na mão, duas pistolas automáticas.
E seu grito de alerta para o bandido foi uma chuva de tiros.
O Assassino das Esquinas talvez nem tenha tido tempo de processar a ordem de prisão de Mica Kash. As balas lhe alvejaram as costas varando em seu peito e baço. Uma bala estourou a garrafa em sua mão, e o tão apreciado uísque se misturou ao sangue quente que jorrava de seu corpo. Caso ainda estivesse vivo, sua sentença foi decretada quando uma enésima bala lhe estourou a cabeça. Satisfeito pelo estrago, Caparotto Jasper prendeu as armas na cintura e ajeitou os óculos, deslizando a mão depois pela sua excêntrica gravata, observando o corpo que ali jazia. O velho Caravaggio soltou um grito de horror ao presenciar a cena. O chão empapuçado de sangue e uísque.
- É assim que se resolvem as coisas! – riu Jasper enquanto Kash colocava as mãos sobre o rosto em sinal de indignação.
O bar estava absurdamente cheio de curiosos que começavam a se aglomerar na porta. As mesas estavam absurdamente sujas de sangue.