segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Capítulo II

CAPÍTULO II – O Enxadrista


Caravaggio que se deixou abater.
Mas por quem?
Caravaggio tinha 85 anos, sua própria morte era apenas questão de tempo. Talvez ele até ansiasse por isso visto que em tanto tempo de vida só apanhou da sociedade e da própria família. Desde a infância foi obrigado a trabalhar para sustentar suas cinco irmãs mais novas. O pai era pedreiro e morreu quando um bloco de cimento escorregou do parapeito de um prédio e esmagou seus miolos. A mãe tinha diabetes e perdeu uma perna, impossibilitando-a de trabalhar em qualquer coisa que fosse, inclusive no lar.
E tudo isso aconteceu quando Caravaggio não tinha nem 15 anos.
De tanto trabalhar pra garantir o mínimo para não morrerem de fome, Caravaggio não fazia amigos e nem namoradas. Não que não gostasse de mulher, mas de tanto conviver com várias não aprendeu a malandragem de se chegar em uma: mais se parecia com uma mulher mesmo.
Mas não ter o pescoço de uma mulher de verdade para cheirar e o corpo de uma para se deliciar deixava o coração do jovem e esquelético Caravaggio amargurado.
Até que um dia desistiu dos seus instintos e se conformou em morrer solteiro.
Mas um homem que, passa ano, passa década, continuava sozinho e sem uma mulher do lado despertava o olhar da vizinhança e da sociedade, ainda o mais quando foi abandonado pela última irmã que ainda morava consigo. A mãe havia morrido de diabetes. As outras irmãs se perderam no mundo com seus homens. Inclusive, a última partiu sem nem dizer “Obrigado por tudo meu irmão querido”.
E assim Caravaggio foi por mais vinte anos vitima de chacotas pelos vizinhos do bairro pobre em que morava por ser o solteirão condenado a virgindade eterna. E era bem por aí, pois havia também um detalhe: Caravaggio era feio, muito feio.
Feio mesmo.
Acredite: a dor e angústia da chacota e da discriminação é infinitamente maior que os problemas que te levaram para tal.
Até que um dia Caravaggio abriu um bar na sua vila com o pouco que conseguiu juntar durante os anos e pela primeira vez em sua vida passou a fazer algumas amizades: com bêbados e devedores.
Foi nestas idas e vindas que conheceu certo dia Zuza, com quem viera a se casar. Zuza era muito bela. Tinha cabelos encaracolados e castanhos, olhos cor de mel, pele branca com sardas perto dos olhos, corpo um pouco acima do peso, que lhe dava um ar de “mulher independente”, pés e mãos um pouco judiadas pelas aulas forçadas de ballet e piano. Ela tinha 21 anos na época. Ele, 55.
Não se casaram por amor, é verdade. Mas por aquilo que move o mundo desde que Deus colocou o Homem na face da Terra: o interesse.
Caravaggio jamais conheceu a família da esposa: ela era lésbica e foi expulsa de casa assim que os pais descobriram. Sabendo disso eles se casaram, mas apenas para que ambos estivessem livres das aparências impostas pela sociedade, ficando-os assim livres das más impressões durante alguns anos. No entanto Zuza só aceitou se casar com Caravaggio com uma condição:
- Nada de relações sexuais seu coroa arrogante!
Era uma relação conturbada. O desejo dentro do peito (e também das calças) de Caravaggio aumentava a cada vez que via a “esposa” se despir na sua frente sem qualquer preocupação. Cogitou agarrá-la a força, mas não teve coragem: era fraco demais para isso também.
Pelo menos todos pararam de mexer com ele.
E assim viveu, cobiçando Zuza com os olhos, por longos doze anos até seu assassinato. Mataram-na junto com sua parceira com quem saia há algum tempo sem consentimento de Caravaggio, que jamais quis conhecer namorada alguma de Zuza.
Não é preciso falar que as chacotas voltaram, e talvez até pior. No entanto não era mais solteiro em sua certidão: constava agora como viúvo.
E isso servia de algum consolo. Pequeno, mas servia.
Desde então, a vida de Caravaggio continuou a mesma porcaria que sempre fora, só que desta vez solitária novamente. O agora velho Caravaggio, já com seus 60 anos poderia até matar sua vontade de comer em um bordel qualquer, mas não era isso que ele queria. E não era isso que aconteceu no transcorrer do tempo.
Deu pra notar como Caravaggio era infeliz com essa rápida biografia chula? No entanto, Caravaggio se deixou abater mas não mudou o rumo de sua vida já predestinada de miséria e solidão: não se perdeu no mundo como muitos. Era um perdido, mas não se perdeu.
E essa é a grande diferença.
Existe sempre alguém acima de você, mas também sempre há alguém abaixo. E foi assim que muitos fizeram de Casulo o que ela é hoje, uma pocilga de marginais. Pois a grande maioria acreditava estar no fundo do poço onde a única maneira de sair era puxar a corda que mantém o outro vivo pendurado neste planeta. Caravaggio estava há muito tempo pendurado aqui, como um peso, mas em momento algum por mais profundo que estivesse, puxou ninguém para alimentar sua própria desgraça e vingança.
Ao contrário de Óitik. Este viveu algo semelhante à Caravaggio.
Não, não era solteirão e tampouco virgem.
Óitik nasceu em família conturbada também, começou a trabalhar cedo e apanhava dos pais. Seu pai foi assassinado por Hudson Bill, um assassino de aluguel que matava a troco de bala Chita, quando tinha dez anos. A mãe era louca e lhe fez uma cicatriz nas costas com uma faca aos treze. Aos quinze ele começou a se drogar. Aos vinte era chefe do crime em Casulo.
As situações eram diferentes, mas os propósitos eram os mesmos: sustentar a família. Mesmo com o ódio no coração, Óitik fazia do crime o seu ganha pão. Talvez até gostasse dessa vida. Mas enquanto Caravaggio suava o rosto magrelo engraxando sapatos para levar um saco de leite para as irmãs e a mãe amputada, Óitik matava e via o sangue escorrer pelo seu rosto rechonchudo para levar um saco de leite para a mãe louca.
Óitik também se deixou abater.
Mas por quem?
Esse foi por sim mesmo.
E é se espelhando em Caravaggio que Caparotto Jasper construiu sua filosofia de trabalho: a inexistência do determinismo. Pois mesmo em condições onde todos os elementos poderiam te levar à loucura e a insanidade, o autocontrole se faz mais forte. Caravaggio se deixou abater pois viveu triste e solitário e não fez nada para melhorar, mas Óitik se abateu pois se deixou levar para a loucura e perdição.
E foi abatido também antes dos trinta. Jasper o matou com um tiro na testa.
Por isso Jasper matava, pois independente de tudo cada um poderia escolher o seu destino, e se a escolha fosse no futuro ser morto por suas mãos, não havia problema algum nisso pois foi essa a escolha feita.
Não se enganem, todos sabemos das conseqüências de nossos atos.
Mica Kash, obviamente, era determinista. Acreditava naqueles criminosos como frutos da sociedade. E assim sendo não mereciam ser executados, mas presos para pagarem por seus atos. Era aquela sociedade insana que fez Óitik buscar um refúgio no mundo do crime para levar o alimento sagrado para a sua boca. Era aquela sociedade que criava monstros para se autodestruir.
Não se enganem, todos sabemos que da sanidade para loucura basta apenas uma faísca.
Mas o destino é cruel, isso é. Não somos todos iguais, isso é ideologia comunista. Cada um é diferente do outro em vários aspectos ou no mínimo um que é o que faz a diferença. E é por isso que o destino é cruel. Pois se formos colocar Deus como um enxadrista, ele estaria sendo péssimo para mexer suas peças. Pelo menos com um garoto sim, que nasceu para ser Rei e foi colocado numa vida sacrificante de Peão.
O nome dele pouco importa, ainda que o que se sucederá não seja comum e mereça atenção. Era um menino bonito, inteligente, cabelos negros como a alma de Casulo. Não vivia em Casulo.
Mas não interessa o local onde esses eventos transcorrem, uma vez que esse tipo de coisa acontece o tempo todo em qualquer lugar do mundo.
O garoto havia nascido numa família perturbada, tal como Caravaggio Maestrino e Óitik Salamander. Mas este sim estava, não no fundo do poço, pois sempre há alguém lá antes de você, mas quase.
O pai era alcoólatra e veterano de guerra. Voltou maluco das trincheiras além das sete cicatrizes que ganhou com a explosão de uma granada aos seus pés. Foi à única coisa que ganhou na guerra. Já no que perdeu entra na conta três dedos e o olho direito. A mãe era doméstica e com a volta do marido vivia o dia inteiro levando desaforo e cusparada na cara.
Sim, ela tinha preferido que ele tivesse morrido na guerra.
O casal, além do garoto, tinha ainda outros dois filhos: outro homem e uma menina.
Nesta época o garoto tinha cerca de doze anos, seu irmão vinte e sua irmã quinze. Ele era o caçula.
Não importe quantos dias felizes você viva em sua vida, sempre haverá um único dia ruim que lhe fará uma granada de escuridão explodir em seus pés e envolver sua mente te sufocando com as lembranças. O garoto teve esse dia, embora a explosão esteja mais para bomba atômica do que para granada em sua memória.
Ele chegara da escola local, onde era considerado um gênio: era exímio em tudo o que fazia. Se você acha que com doze anos ele era fantástico por saber a capital de todos os países, saber realizar todas as operações algébricas, saber escrever uma dissertação sem erros ortográficos e saber a história do seu país de cabo a rabo, está enganado. Ele sabia isso também, mas sabia muito mais. Ele sabia a história de todos os países, ele sabia escrever um livro inteiro sem um único erro, ele sabia todas as contas possíveis e sabia onde cada um se encontrava no globo naquele momento. Não, não era paranormal, era gênio mesmo. Deduzia fazendo uso da química, física, coordenadas geográficas e tudo aquilo que ensinam até em universidades. Como ele sabia de tudo isso?
Era determinado e focado. Mas acima de tudo, havia nascido com o dom.
E foi um garoto como esse, com potencial de futuro cientista do século, presidente da república do seu país ou primeiro homem a pisar em Marte que pisou em sua casa e se deparou com um clima já bem conhecido, só que neste dia potencializado.
Ele presenciou o seu pai, já alcoolizado, discutir com seu irmão aos berros:
- VOCÊ PRECISA DE UM TRATAMENTO URGENTE! VOCÊ É DOENTE! – gritava o irmão rispidamente enquanto o pai cambaleava e se esforçava para se manter em pé.
- VOCÊ É QUEM PRECISA DE TRATAMENTO, SÓ QUE PRA VIRAR GENTE! – se esforçava o pai para gritar mais alto, a voz rouca ecoando pela casa em pânico.
- O deixe em paz Gahd, por favor – implorava a mãe para o marido que se virou e a encarou com o único olho que lhe restara na cara. Ela pôde ver a ira nas pupilas dilatadas e o ódio exalar de suas glândulas sudoríparas.
- Sua vadia, fique fora disso.
E saiu da sala. O garoto ficou ali assustado no hall da casa sem ao menos ser notado. Se ele soubesse o que estava para acontecer teria corrido para bem longe.
O que aconteceria em breve não se podia deduzir nem sendo mestre em todas as disciplinas do mundo.
E foi assim que ainda assustado e imóvel ele viu o pai irromper a sala com seu fuzil de guerra antigo e enferrujado e atirar nas costas de sua mãe que caiu intrépida no chão. A irmã, que sempre fora esbelta e muito atraente mesmo com seus quinze anos, também surgiu de seu quarto e soltou um grito de horror ao presenciar a cena.
O pai então, cambaleando bêbado, errou o segundo tiro, mas não o terceiro, ainda que caindo depois.
O terceiro disparo explodiu a cabeça do irmão que após ver a mãe ser morta não conseguiu esboçar movimento qualquer de reação. O garoto também estava aterrorizado e sabia o que o irmão havia sentido por poucos segundos antes de ser ceifado, pois aquele sentimento estava dentro dele desde o momento que pisara em casa.
E o acompanharia pro resto da vida.
O pai Gahd se levantou deixando o fuzil no chão e, sem notar a presença do caçula, caminhou para a filha, abafando seus gritos com a mão faltando dedos e lhe encurralando para o quarto.
O garoto então viu o pai e a irmã pela última vez, pois a porta do quarto se fechou e as imagens deram lugar ao som de chutes, gritos de terror e ranger de cama num uníssono de desespero.
E só aí o cérebro do garoto se lembrou de como andar, mas não como correr, pois ele tropeçou mais de três vezes até o caminho do posto policial mais perto.
Quando os policiais chegaram, o pai já tinha feito o que queria fazer, matado a filha estrangulada e se matado depois com um tiro de fuzil no peito.
O garoto foi para um orfanato e não falou com ninguém por longos três meses. Continuou freqüentando a escola, onde seu rendimento continuou impecável. Só que seu comportamento não era mais o mesmo, nem mesmo seu olhar. Parecia um zumbi ou um robô programado pra existir e não para viver.
Quando ele voltou a falar, não foi com ninguém real, e sim com seu amigo imaginário. Sim, quando eu disse que ele estava quase no fundo do poço da vida era verdade. Ainda por cima o garoto era esquizofrênico.
Mas nada do que tinha presenciado na sua casa fora ilusão. Antes fosse.
Todos que viviam com o garoto tanto na sala de aula como no quarto de orfanato, o ouviam questionar encarando o vento:
- O que faremos agora Nurmitch? 
E talvez por não receber resposta alguma da sua imaginação que ele se perdeu.
E talvez por receber todas as respostas que queria ouvir do seu subconsciente ele se salvou.
Só o garoto sabia da resposta, pois só ele via o que via, só ele sabia o que tinha vivido.
Autocontrole? Determinismo?
Não dá para saber. A única forma é conter aquilo que está acontecendo independente de como acontece. É essa a definição da parceria de Kash e Jasper.
Deus sabe também ser um ótimo enxadrista colocando as Torres certas para defender o seu jogo até o fim.
Mas não se enganem, todos sabemos que até no xadrez o mundo é desigual, afinal, porque sempre as peças brancas avançam primeiro?
Para ter mais chances de abater as pretas.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Caricatos Senhores da Morte

CAPÍTULO I – Absurdamente Limpos

As mesas estavam absurdamente limpas neste dia. O bar estava absurdamente vazio. Não completamente, não era um bar fantasma apesar de ter uma aparência que leve precipitadamente a essa conclusão. Era um bar de aparência western, o chão moldado por tacos rachados, as janelas quadradas sustentando vidraças igualmente rachadas e o balcão velho, por onde atrás atendia um homem igualmente velho, o único a dar um ar de vida naquele ambiente. No entanto, as mesas e cadeiras de madeira distribuídas pelo salão estavam absurdamente limpas neste dia. E o bar absurdamente vazio.
Por ora.
O velho passava uma flanela sobre a superfície do balcão e a cada movimento retirava uma crosta de poeira do local. O velho tinha olhos tristes, cabeça calva, rugas no rosto. É, de fato o tempo cicatrizou aquele homem. Lindo bebê, forte criança, astuto jovem, cansado adulto e, por fim, asqueroso velho. Culpa de quem essa imagem? Do tempo? Da sociedade? Ou do velho que se deixou abater? Talvez tudo, talvez nada.
Talvez tudo, talvez nada.
Os braços magros do velho suplicavam para largar a flanela, já calejados pelo excesso de movimentos repetitivos. No entanto, depois de um tempo, o balcão pareceu mais limpo e passou a simpatizar com as mesas e cadeiras. Com o velho jamais. Atrás do velho e do balcão estava ainda a prateleira, longa e rústica, onde dormia garrafas de uísque, vodka e vinhos que por vezes há mais de 20 anos estavam ali tomando pó.
Pobres garrafas, essas sim conhecem o sentimento de abandono.
Quando o velho enfim largou a flanela bicolor de poeira, dois homens romperam bar adentro pela porta, adivinhem? Também de madeira. A madeira envelhece com o tempo, perde o brilho e é corroída pelos cupins, talvez isso justifique a vontade do velho de construir o bar assim.
Viverem o auge juntos, e depois, juntos caírem em decadência.
O primeiro homem era alto, devia ter por volta de um metro e noventa, cabelos curtos e pretos, tão pretos, que ao exposto à luz do Sol se tingia de azulado. Os olhos castanhos eqüidistantes de um nariz pequeno e bem desenhado. Vestia uma camiseta branca, calça jeans desbotada e um sapato de couro marrom. Vestimenta simples, semblante também simples. Era magro mas notavelmente forte, e na cintura uma arma repousava, dormia, sem saber quando seria acordada. O segundo homem era relativamente baixo, cerca de um metro e setenta, cabelos também curtos só que claros, não totalmente loiros. O cabelo repartido em três formando um ligeiro “topete intelectual” dava uma imagem inofensiva e meramente infantil ao homem. Para ajudar no estereótipo, os óculos adiantavam-se no nariz curvo aos olhos azuis, e a gravata cinza de bolas vermelhas pendia para baixo sob o colarinho da camisa azul, que ornava com a calça jeans. Usava também sapatos, só que pretos, e arma também repousava em sua cintura, mas não uma e sim duas, uma a cada lado do corpo. Também magro, só que sem definições musculares e sim definições de fraqueza, o primeiro homem era completamente diferente do segundo.
Sem sombra de dúvidas, um completamente diferente do outro.
Os homens caminharam entre as mesas e chegaram ao balcão. O velho levantou os olhos frios e cinzentos para observá-los e seus lábios tremeram. Não arrisco dizer que era de medo, mas de apreensão ou ansiedade. Ou talvez fosse apenas mais um tique de velho.
- Bom dia Caravaggio, - cumprimentou o homem alto – esperamos encontrar quem pretendemos aqui hoje.
- Com certeza Sr. Kash – retrucou o velho Caravaggio com sua voz monótona – não há erro, ao menos que o mundo esteja conspirando para contrariar os eventos muito prováveis. Não é mesmo Sr. Jasper?
- Eu sei o que vai ser bem provável quando aquele imundo aparecer – respondeu o diminuto Jasper em seu tom de menosprezo, ajeitando os óculos.
- Eu já disse que dentro do meu bar eu quero que as coisas sejam resolvidas de maneira kashiana – rosnou Caravaggio, pegando a flanela só para apertá-la como tentativa de aliviar sua tensão. O pó que fugiu entre seus dedos se dispersou no ar.
 Engraçado como as coisas se dispersam facilmente.
- Muito obrigado Caravaggio, - retornou Kash – meu parceiro não entende que o método kashiano é muito mais humano que o sistema jasperiano.
- HUMANO? – rompeu a gritar Jasper, os óculos se esgueirando pelo nariz novamente – Você acha humano o que esses porcos fazem com outros humanos? Você acha um ato pacífico matar, estuprar, enganar...
- Humano não é – interrompeu Kash tranquilamente, contrapondo-se com o temperamento do colega – mas o seu método nos torna um deles, nos desumaniza.
Caravaggio assentiu com a cabeça. Pescoço fino que sustenta a cabeça calva facilmente de ser quebrado.
- Não venha me fazer apologia a bondade para com esses animais. O sistema tem que ser bruto, tem que ser na base do terror.
O terror tentando derrotar o terror. Interessante paradoxo.
- Já me expus demais e não quero mais saber dessa história. Estou fazendo a minha parte e vocês façam a de vocês, mas como disse – Caravaggio soltou uma tosse forte, que ameaçou se tornar uma crise – mas como disse, não quero ninguém morto no meu bar.
- Não mataremos ninguém – tranqüilizou-o Kash – apenas o prenderemos e o levaremos para a prisão, não é mesmo Jasper?
Jasper cruzou os braços e bufou em sinal de descontentamento, mas parecia no fundo conformado com a idéia.
Parecia.
- Logo ele chegará, não costuma atrasar, virou uma espécie de ritual ele tomar um copo, talvez dois, de uísque aqui antes de ir trabalhar – pigarreou Caravaggio.
- Você quis dizer antes de ir matar não é mesmo? – ironizou Jasper com um sorriso amarelo no rosto – Enfim hoje o Assassino das Esquinas vai ser dobrado em dois.
- Pare com isso Jasper – começou Kash, espreitando o bar – Vamos nos preparar para prendê-lo, como manda...
- A lei? A lei também nos deu o poder de queimar esse tipo de ralé meu caro amigo Kash.
- Como manda as boas normas morais – completou Kash olhando com desdém o companheiro.
Kash, apesar de ser companheiro de Jasper há alguns anos, ainda tinha medo do parceiro. Sabia que ele procurava justiça acima de tudo, só que sabia também que não media conseqüências para isso. Em palavras mais simples, não importava quanto sangue fosse derramado.
Estamos em 1996, numa cidade interiorana de um país capitalista qualquer. Não interessa o local onde esses eventos transcorrem, uma vez que esse tipo de coisa acontece o tempo todo em qualquer lugar do mundo. A única informação relevante é que a cidade se chama Casulo, o infeliz que a fundou com esse nome continua anônimo até hoje.
Faz sentido o porquê.
Casulo é uma cidade relativamente grande e que continua crescendo a passos largos ao decorrer dos anos desde a sua fundação em 1900. E quando uma cidade cresce, cresce o contingente populacional, cresce a infraestrutura, cresce a industrialização, e cresce também no outro ponto do vértice a fome, a miséria e a criminalidade. Mas em Casulo, essa outra ponta do vértice cresceu a taxas crescentes. Não em todas as questões, mas uma em especial: a criminalidade.
Não sabemos quem define isso, mas alguém possivelmente deve definir, pois parece que todo psicopata, assassino ou outro grau qualquer de maluquice nasce ou vai morar em Casulo. Os noticiários locais se divertem e rendem horas relatando os casos diários de delinqüências e a cidade vez ou outra sempre está nos jornais e telejornais de circulação nacional expondo seu “lindo exemplo de segurança”. Mas nem tudo em Casulo gira em torno de tripas e sangue.
Pelo menos, já foi pior.
Em 1991, como tentativa de solução drástica para a diminuição da criminalidade, o então prefeito da época assinou e conseguiu a aprovação de uma lei que permitia que os policiais de Casulo matassem quando achassem necessário. A lei valia para estupradores e assassinos em geral. Com o poder de matar nas mãos, muitos policiais fizeram mau uso da lei e acabaram matando alguns civis, o que tornava o quadro cada vez mais crítico.
Tem coisas, amigos, que não têm explicação.
Até que, um ano depois, dois policiais assumiram o comando da segurança municipal e baniram todos os outros que se achavam deuses por poderem empunhar uma arma e a usarem sem conseqüência.
E foi ai que as coisas aparentemente começaram a melhorar.
Os nomes deles eram Mica Kash e Caparotto Jasper. O primeiro não gostava da Lei de Sangue e preferia a prisão dos bandidos. O segundo preferia poupar a população de pagar impostos que, quando não desviados para os bolsos corruptos, em parte iriam para a manutenção do sistema carcerário de Casulo. Por isso todos temiam os dois, mas sabiam que com Kash se iria para a prisão e com Jasper se iria para o necrotério.
Mas Jasper matava consciente. Sabia que quem ele estava apagando já tinha apagado a vida ou a esperança de alguém também.
E assim, com Kash e Jasper e uma peneirada nos responsáveis pela segurança, os psicopatas de plantão sintonizaram que as conseqüências para seus atos poderiam ser desastrosas.
Essa é uma breve história do que nos interessa sobre um evento horrível que acontece numa cidade de nome também horrível.
Kash olhava com desdém o parceiro.
Mais um dia de trabalho. Quem quer sobreviver, tem que trabalhar.
Ou roubar, saquear e matar.
Seria essa a explicação para aquilo que não possui explicação?
- Venham, se escondam atrás do balcão – Caravaggio quebrou a monotonia com sua voz monótona – quero fazer o desgraçado confessar para vocês terem a certeza antes de qualquer coisa.
Kash e Jasper pularam o balcão e entraram no armário que ficava atrás, abaixo. Caravaggio deixou a porta do armário entreaberta, para que todo o sentimento do bar entrasse na pele dos dois policiais. Nenhum som, nenhuma luminosidade, nenhum evento suspeito escaparia pelo faro deles. Nem mesmo o pó do balcão que adentrava o armário. Era uma situação incomoda sim.
No entanto as mesas estavam absurdamente limpas.
Alguns minutos se passaram, essa é a verdade, mas para Kash e Jasper pareciam muito mais, pareciam horas encolhidos naquele armário. Eles espreitavam pela fresta da porta a péssima cena do queixo de Caravaggio, que vez ou outra deslizava a cabeça pelo pescoço fino para observar os dois abaixo dele. Foi quando a tese de Caravaggio se confirmou.
E um homem, moreno, olhos grandes e verdes, barba a fazer e semblante doentio rompeu bar adentro. Como o previsto.
O homem chegou ao balcão:
- Me vê uma dose do de sempre ai velhote – a voz grossa ecoando pelo bar.
Caravaggio se afastou do balcão e se virou para a prateleira, onde fitou por um momento uma garrafa de uísque e a pegou. Esta, ao contrário de suas irmãs de exílio, não estava empoeirada e estava até começada.
Era o uísque preferido de um assassino.
Caravaggio pegou um copo de vidro, típico de bar, e o encheu do uísque. O homem encarava o velho Caravaggio com seus grandes olhos verdes, sem fazer movimento algum. Quando o fez, foi para pegar o copo e descer o uísque garganta adentro. Foi-se tudo de uma golada só.
- Me dá outra dose velho asqueroso! – ordenou o homem rispidamente, os respingos de sua saliva alcoólica lavando o rosto do pobre velho.
Caravaggio o atendeu.
- Quer saber? – indagou o homem, tomando a segunda dose da mesma maneira ligeira que a primeira – Me dê essa garrafa que hoje vou levá-la junto comigo!
- Mas cadê o dinheiro Gutierrez? – desafiou o velho, seus lábios tremendo em compensação.
O homem deu um murro no balcão e o pó que ainda restava e não namorava a flanela se ergueu no ar. Será que duas doses já o tinham deixado bêbado?, pensou Kash escutando tudo e se preparando para a prisão.
Jasper também se preparava. Para o abate.
- Primeiramente meu nome não é Gutierrez, meu nome é Hector, e se você não tem o direito de falar nem meu apelido quanto mais diria o meu nome. E outra coisa seu velho, ou me dá essa porcaria de garrafa ou vou quebrar esse seu pescoço de palito e te jogar numa esquina qualquer.
Jogar em uma esquina. Isso é o bastante para quem quer capturar o Assassino das Esquinas.
O velho Caravaggio abaixou a cabeça e deu uma olhada rápida para os olhos de Kash através da fresta. Kash piscou em sinal de conforto, e quando Caravaggio subiu a face e encarou Hector “Gutierrez”, vulgo “Assassino das Esquinas”, ele sorriu.
- Ta rindo do que velhote? – bradou Hector, erguendo a mão fechada em sinal ofensivo.
- Nada, nada, aqui está a garrafa, pode levar.
Hector pegou a garrafa e sorriu como réplica. A fisionomia sombria e doentia evidenciada em cada desenho de sua face. Ele abriu a mão ainda em sentido de ataque e simulou uma arma com os dedos fingindo atirar no velho.
- Bang! – sibilou o Assassino das Esquinas, e envolto com a própria gargalhada, deu as costas ao balcão e caminhou em direção a porta.
Nesse momento, Kash irrompeu do armário com a arma em punho:
- Parado Assassino das Esquinas. Você está preso!
Concomitantemente Jasper saiu do armário com as duas armas na mão, duas pistolas automáticas.
E seu grito de alerta para o bandido foi uma chuva de tiros.
O Assassino das Esquinas talvez nem tenha tido tempo de processar a ordem de prisão de Mica Kash. As balas lhe alvejaram as costas varando em seu peito e baço. Uma bala estourou a garrafa em sua mão, e o tão apreciado uísque se misturou ao sangue quente que jorrava de seu corpo. Caso ainda estivesse vivo, sua sentença foi decretada quando uma enésima bala lhe estourou a cabeça. Satisfeito pelo estrago, Caparotto Jasper prendeu as armas na cintura e ajeitou os óculos, deslizando a mão depois pela sua excêntrica gravata, observando o corpo que ali jazia. O velho Caravaggio soltou um grito de horror ao presenciar a cena. O chão empapuçado de sangue e uísque.
- É assim que se resolvem as coisas! – riu Jasper enquanto Kash colocava as mãos sobre o rosto em sinal de indignação.
O bar estava absurdamente cheio de curiosos que começavam a se aglomerar na porta. As mesas estavam absurdamente sujas de sangue.